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24º Domingo Comum C

 

A MISERICÓRDIA É ACOLHER O FRACO E O ARREPENDIDO
Frei Jacir de Freitas Farias, ofm

 

I. INTRODUÇÃO GERAL
As três leituras de hoje nos colocam diante do tema da misericórdia. Na primeira, Deus se arrepende da decisão de punir Israel; na segunda, Paulo diz a Timóteo que Cristo veio para salvar os pecadores, dos quais ele é o primeiro; já no evangelho, a parábola da ovelha perdida e a do filho pródigo demonstram o quanto Deus é misericordioso.
Moisés, Paulo e Cristo revelam a misericórdia de Deus. O pastor e o pai do filho pródigo são exemplos de amor misericordioso. A dona de casa é o exemplo da procura constante por algo que estava perdido, mas que é valioso, uma moeda.
O substantivo misericórdia tem sua origem em miser: sofrimento e cordis: coração, vindo a significar: coração sofredor ou trazer o coração a miséria, a pedido de perdão. Quem implora misericórdia é aquele que não tem nada mais a dizer a seu favor e pede que o outro o ajude.
Como viver a misericórdia em nossas vidas? Somos capazes de perdoar e de acolher o sofredor em nossa vida? Ou somos como o filho mais velho do evangelho que não compreendeu que Deus tem amor preferencial pelos oprimidos e pecadores arrependidos?

 

II. COMENTÁRIOS DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Ex 32,7-11.13-14): Deus mesmo dá exemplo de misericórdia
A primeira leitura deve ser compreendida no contexto do capítulo 32 do livro do Êxodo. Ex 32,1-29 relata que, tendo Moisés permanecido muito tempo na montanha em companhia de Deus, o povo, então, consulta Aarão, pedindo-lhe uma representação de Deus que pudesse guiá-los. Aarão permite, e eles constroem, com suas joias, o famoso bezerro de ouro, que poderia ser a representação de três coisas: o boi Ápis – deus egípcio; Baal – divindade cananeia responsável pela fecundidade; Javé – Deus libertador do Egito. Atualizando, podemos dizer que o bezerro representa o deus do dinheiro. Mesmo que não tenhamos clareza do que esse tal bezerro de ouro representasse, o que importa é que Deus pede a Moisés que desça e aja com vigor. Deus não suportava tal atitude de seu povo eleito. A reação de Moisés foi a de jogar as tábuas da Lei no chão, quebrá-las, para significar que o contrato, a aliança entre Deus e o povo, tinha sido rompido, e de se opor aos seus irmãos idólatras.
O contexto histórico da primeira leitura é o reino do Sul, Judá, na época do rei Josias (622 a.E.C.), um sábio rei que fizera uma reforma religiosa a partir de uma cópia da lei, encontrada pelo sacerdote Helcias. O povo estava indo atrás de ídolos. Por isso, a identificação dos fatos com o Sinai é para demonstrar que, já desde tempos antigos, o povo era infiel. Nada havia mudado. O pacto de fidelidade, firmando a libertação do Egito, expresso no Decálogo (Dt 5,6-21) havia sido rompido. Caso eles continuassem nesse mesmo caminho de infidelidade, seriam destruídos como os irmãos do norte, fato que ocorrera em 722 a.E.C., quando o dominador assírio invadiu o país e os levou prisioneiros.
O relato de Ex 32,7-11.13-14 nos desconcerta, quando mostra o lado humano de Deus. Ele fica muito chateado com o seu povo. A sua ira é tamanha que ele quer castigá-los severamente. O seu interlocutor é Moisés, com quem ele desabafa. Moisés lhe pede que abrande a sua ira, levando em consideração os patriarcas. Deus, então, muda de opinião e decide perdoar o povo, por causa do seu servo fiel, Moisés. Deus decide punir para corrigir o seu povo, mas acaba acreditando que ele vai mudar de atitude. Ele acredita. A destruição do povo estava nas mãos de Deus, a sua misericórdia fez com que eles tivessem uma segunda oportunidade. O Senhor Deus de Israel se revela cheio de piedade e ternura, lento para a ira e rico em amor. E um Deus que se arrepende do mal, conforme atesta o profeta Jonas, depois de uma longa trajetória de misericórdia (Jn 4,2).

2. Evangelho (Lc 15,1-32): três parábolas de misericórdia
O Evangelho de hoje dá continuidade ao tema da primeira leitura, a misericórdia, apresentada em três modos: uma ovelha e uma moeda se perdem, em contraste com o filho que busca a perdição. Na outra ponta da linha: um pastor, uma dona de casa e um pai. O número três era muito importante para o judeu, pois representava a garantia da observância da fé judaica do shemá Israel: amará a Deus com o coração, a alma e as posses (Dt 6,4-9). Esses seis elementos se entrelaçam para nos ensinar que misericórdia é sinônimo de arrependimento e acolhimento. O pastor, a dona de casa e o pai expressam seus sentimentos de ternura e compaixão, assim como o Deus da primeira leitura.
a. A ovelha perdida. Pinturas iconográficas não faltam para demonstrar a cena descrita nessa parábola: Jesus, o bom pastor, carregando nos ombros uma indefesa ovelha. Já no Primeiro Testamento, encontramos inúmeras referências a Deus como pastor, solicitando ao seu povo que busque sempre a ovelha desgarrada da casa de Israel (Sl 23, Ez 34,16; Mq 4,6-7; Jr 23,1-4). Assim, a comunidade de Lucas fez questão de relembrar o ensinamento da misericórdia feito por Jesus. O pastor não era uma figura muito bem--vista entre os judeus. Ele, por causa da profissão, era considerado impuro, pecador, impedido de seguir a Lei. Não por menos, no nascimento de Jesus, a figura dos pastores foi valorizada. Fariseus e doutores da Lei não gostavam de pastores. Eles os consideravam iguais aos ladrões e prostitutas. Nessa parábola, salta aos olhos a figura do pastor misericordioso, Deus, que vai ao encontro de uma única ovelha, a perdida. Ela vale tanto quanto as outras. Aqueles que estão sãos não precisam de remédio, mas os pecadores, que precisam de arrependimento (Lc 5,31b-32). Deus é o pastor que se alegra veementemente com o convertido.
b. A dracma perdida. Dracma era uma moeda grega. O seu valor era o de um dia de salário do trabalhador (Mt 20,2.9.13). Entre os romanos, usava-se a moeda denário. Essa primeira constatação já nos mostra que se tratava de uma mulher pagã. Como as casas eram pouco iluminadas, fazia-se uso de uma lamparina. Essa parábola, como a anterior, enfatiza a alegria do encontro de algo de valor que estava perdido. O ensinamento é o mesmo.
c. O filho pródigo. A terceira parábola do evangelho deste domingo é o ápice da mensagem da misericórdia de Deus que não faz acepção de pessoas. É fácil entender a lógica do texto. Três personagens estão em cena: o pai, o filho mais velho e o mais novo. Pela lógica da sociedade daquela época, o filho mais velho, o primogênito, tinha o direito de posse da terra que era administrada pelo pai (Lc 25,23). O filho mais novo é chamado de pródigo, isto é, o gastador, o esbanjador. Esse filho rompe com o pai ao exigir-lhe que lhe desse a parte da herança que lhe cabia. Ele dá o grito de liberdade: quero ser eu e seguir o meu caminho. O fim da história é conhecido: ele, depois de se perder com festas e vida devassa, é obrigado a comer com os porcos, animais impuros para os judeus. O filho pródigo chegou ao ápice de sua condição indigna. Lembrou-se da vida tranquila que tinha com o pai e resolve, então, voltar para a casa paterna, com o propósito de pedir perdão, pois havia se arrependido amargamente pela atitude que tomara. O que o motiva a voltar, mais do que a saudade do bem-estar, é a figura, a imagem do pai que ele havia perdido. À sua volta, o pai faz uma grande festa, oferece até um banquete, calça-lhe sandálias para dizer que ele era um homem livre, e lhe dá um anel para demonstrar que a sua autoridade estava reconquistada.
O filho mais velho, na lógica do relato, não aceita aquela atitude. O que isso significa? O filho mais novo representa os deserdados, os impuros que Jesus acolhia no seu Reino, bem como o filho que quer independência na relação paterna. É o passarinho que criou asas e quer voar. O filho mais velho representa os fariseus e doutores da Lei, tidos como os certinhos, que também recusam os pobres e os ensinamentos de Jesus. A parábola não deixa claro qual a decisão que ele tomou: entrou na casa em festa ou afastou-se dela. O filho mais velho somos todos nós quando ficamos indiferentes e indecisos em relação à proposta do Reino, assim como os fariseus de ontem. O pai representa a misericórdia de Deus e a figura paterna que está dentro de cada um de nós. Ele é o interlocutor que deixa o filho fazer a sua experiência. Ele perdoa, porque sabe que o filho é um limitado.

3. II leitura (1Tm 1,12-17): Paulo agradece a Cristo a misericórdia para com ele
A comunidade de Éfeso, palco dessa leitura, estando sob a liderança de Timóteo, estava dividida em meio a conflitos de poder. As lideranças, julgando-se irrepreensíveis e donas do saber, não usavam de misericórdia para com os membros da comunidade.
Escrevendo ao seu filho na fé, Timóteo, Paulo começa agradecendo a Cristo Jesus, nosso Senhor, por tê-lo considerado digno de segui-lo. Ele relembra a sua condição de perseguidor e blasfemo e mostra como Cristo usou de misericórdia para com ele. Paulo ainda afirma que a graça do Senhor Jesus operou nele, de modo que todos os que creem, como ele, possam encontrar o perdão. Paulo passa a ser o exemplo de cristão. Ele tem consciência disso. Ele é humilde em reconhecer a sua condição de pecador. Paulo, com isso, elabora a teologia da salvação em Jesus, que veio trazer a misericórdia e o perdão para os pecadores.
A Deus, para Paulo, só resta fazer um louvor, uma doxologia litúrgica: “Ao Rei dos séculos, ao Deus incorruptível, invisível e único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém!” (v. 17). Somente a Ele devemos esses louvores, mas não às lideranças e hierarquias que se julgavam sem erro e, portanto, sem a misericórdia e a graça divina.

 

III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Levar a comunidade a se perguntar pelas suas atitudes de misericórdia na comunidade e na família. Perdoar é esquecer, é recomeçar a vida. A tarefa do cristão é semear misericórdia, sem, contudo, fazer vistas grossas para com as injustiças. O perdoado também dever mudar de atitude, como fez Paulo. Vale aqui lembrar também o exemplo de Santo Agostinho e de sua mãe Mônica. Sentimo-nos como “filho mais velho” ou “filho mais novo”? “Ou somos como o pai”?
Perguntar pelos atos e obras de misericórdia social para com os pobres, de modo a resgatá-los de sua condição de miséria. As eleições se aproximam. Qual é a nossa resposta para solucionar os graves problemas sociais que assolam o nosso país? Qual é o perfil de nossas lideranças? Arrogantes como as lideranças de Éfeso?
Como temos trabalhado dentro de cada um de nós as dimensões de pastor e de pai? Pastor que cuida e, por isso, protege. Pai que educa e, por isso, deixa o filho partir para a vida educá-lo, mas que também acolhe o arrependido.

 

Fonte: Revista Vida Pastoral - Paulus

 
Paróquia Nossa Sra. do Perpétuo Socorro